Teocracia, Laicidade e Discriminação.

Não.

Não é chato, não passou da conta, não “tá na hora de deixar isso pra lá”. Não está.
Por semanas tenho ouvido pessoas dizerem que “essa história de Marco Feliciano e preconceito contra homossexuais e negros já deu o que tinha que dar”, pessoas tentando calar outras pessoas. Normalmente pessoas brancas, heterossexuais, evangélicas ou homossexuais e negros que nunca sofreram violência motivada pelo preconceito (ou simplesmente pessoas que acreditam que “É assim a tanto tempo, não vai mudar).
Pela primeira vez, em muito tempo, os grupos atingidos pelos comentários do presidente da CDH, tem se unido em favor de uma causa. Protestos, abaixo-assinados, cobrança de seus representantes políticos, mas a monumental capacidade que o ser humano tem de olhar somente para o seu próprio umbigo tem levantado exércitos de opressores em meio ao povo que deveria estar lutando lado a lado.
Não vivemos num Estado teocrático, e sim num estado Laico. Vi diversas reportagens e comentários de pessoas tentando confundir o termo “Laico” com o termo “Ateu”. Utilizo-me das palavras de Paulo Roberto Iotti Vecchiatti para diferenciar um Estado Laico de um Estado Ateu:
“Estado Laico é aquele que não se confunde com determinada religião, não adota uma religião oficial, permite a mais ampla liberdade de crença, descrença e religião, com igualdade de direitos entre as diversas crenças e descrenças e no qual fundamentações religiosas não podem influir nos rumos políticos e jurídicos da nação. É o que se defende ser o Brasil sob a égide da Constituição Federal de 1988, em razão de seu art. 19, inc. I, vedar relações de dependência ou aliança com quaisquer religiões.
Estado Ateu é aquele que adota a negação da existência de Deus como doutrina filosófica e, portanto, não aceita que seus cidadãos manifestem suas crenças religiosas. Trata-se de um totalitarismo que se encontra no extremo oposto do totalitarismo teocrático: enquanto neste exige-se que todos façam parte e respeitem os dogmas da religião da instituição religiosa que se confunde com o Estado, naquele exige-se que todos não tenham nem professem nenhuma crença teísta. É o caso da China.” (http://jus.com.br/revista/texto/11457/tomemos-a-serio-o-principio-do-estado-laico)
Não. Ninguém quer impedir as pessoas de terem e praticarem sua fé. O que queremos é que isso ocorra dentro dos templos, pois perante a sociedade tomos somos iguais (ou pelo menos deveríamos ser), deveríamos tratar todos de forma igualitária.É inadmissível que religiosos reivindiquem o “direito” de discriminar uma pessoa (por qualquer motivo que seja), membros de uma religião que diz “pregar o amor”. Frequentei igrejas evangélicas por mais de 10 anos, e os absurdos que ouvi a respeito de homossexuais, mulheres e, inclusive, pessoas com menor poder aquisitivo são inaceitáveis. A desculpa: está na bíblia.
De qualquer maneira, não é contra o preconceito que devemos lutar, e sim contra a discriminação, afinal, preconceito é um juízo mental que não tem consequências no mundo físico, a discriminação sim.
Imagine você sendo uma mulher que é obrigada a ouvir cantadas de desconhecidos (que acham que todas as mulheres deveriam se sentir lisonjeadas por receber um “elogio” de um homem)e prefere não replicar, pois correria o risco de ser agredida verbal ou fisicamente. Ou uma senhora ou senhor de idade, que apenas pelo fato de serem idosos, muitas vezes tem suas opiniões ignoradas e direitos vedados.Um casal homoafetivo, que (impedido de dar as mãos em público como os casais heterossexuais) é agredido apenas por trocar olhares de ternura. Um pai e um filho que se abraçam na rua e, confundidos com um casal homossexual, é agredido. Um negro que é humilhado numa blitz policial apenas por ser negro. Obesos que sofrem bullying na escola durante anos, simplesmente por estarem acima do peso da maioria.
São tantos exemplos de discriminação e intolerância no nosso cotidiano.
Não. Não vamos nos calar, não é um assunto chato, não é passado. É real e presente.
Talvez as escolas brasileiras devessem ter antropologia nos cursos básicos, assim (quem sabe), algumas pessoas seriam capazes de se colocar no lugar do outro (ou pelo menos tentassem).
O que não diz respeito a nós mesmos é chato.
Temos que quebrar esse paradigma. Antes que seja tarde. Antes que nossas liberdades sejam dizimadas num estado Laico dominado por religiosos que não sabem separar suas crenças de seu trabalho. Isso sim seria uma ditadura, e não os termos fantasioso que vi tantas vezes em cultos religiosos, programas de TV e jornais como: a “ditadura gay” ou “ditadura atéia” e o termo que mais me impressionou os “Laicistas”. Só gostaria de lembrar que homossexuais, Ateus e Laicistas não são organizações similares a empresas. A igreja sim.

Ramon D’Ulevart

Posted 1 month ago